Os Duplos

Eu escolhi uma modulação específica para ser o duplo, uma parede branca. Modulação é diferente dos módulos, explica Deleuze. As representações — significações — que se dão por meio de semelhanças ou convencionalidades (ver esses dois termos em semiótica) são moldes. Quando se trata de contigüidade, entretanto, seja na representação de uma associação de idéias mentais ou na significação da experiência de apreciar uma fotografia, o caso é de modulação. Em termos bem simples, a modulação é viva, atua, faz, modula enquantos os moldes são estáticos. Muita gente discorda de Deleuze por isso. Vamos tentar exemplificar: as pegadas de um animal na terra significam a presença do animal de várias formas, entretanto, é forte ai a representação por contigüidade. A contigüidade, a vizinhança, o contato físico, a motivação (rubrica da lingüística) é muito importante nesse tipo de representação. Se o objeto representado pela pegada, o animal, não estive entrado em contato físico (no caso a contigüidade é por contato físico) com o chão, então não teríamos ai um signo que comunica o fato de que um animal passou por ali em tal ou tal direção.

Para Deleuze, uma fotografia, uma impressão digital, uma pegada de um animal são modulações. O nome do animal escrito, o nome da pessoa fotografada ou um desenho, são moldes. A modulação é viva e é nela que o duplo se desdobra em larga medida. Vou modular duplos a partir de uma parede branca. Paredes brancas, lugar comum, folhas brancas do escritor, tela em branco do pintor; vou modular ai algum desempenho do duplo. O duplo tem muito a ver com a presença do vivo no morto e do morto no vivo. Vejamos abaixo o que posso modular então.

Diante da parede branca, sem poder ir adiante, o existir não pode ex muito, e muito menos este ex não pode ir. Parado, atado, atado pela corda inexistente que emana da parede branca. Ela é um duplo. Aqui, o duplo é um objeto morto que emana de maneira estranha e singular, inquietante, a condição do vivo que se lhe projeta suas ânsias (DIDI-HUBERMAN Georges, O que vemos o que nos olha). O duplo é a emanação do vivo, o existente, pelo morto, a parede branca, no nosso caso.

E eis que você é evocado aqui pela primeira vez, no nosso pequeno conto que canta a história de Herder. E o leitor nem sabia que estava prestes a entrar em um conto. Mas é assim a literatura, prossigamos. Herder e a parede branca não vai muito além disso: um homem diante de uma parede branca que era para ele o símbolo, o duplo, de um outro homem, também como ele existente, insistente em ser e estar, deslocando-se de alguma forma, indo para algum possível, imaginável, palpável e talvez até atingível exterior. Ex, fora de si. A etimologia do termo emoção nos leva a isso: fora de si, sair de sua condição ordinária. É a condição extática: ex tasis. O êxtase é um anseio, um desejo dilacerante de não encontrar a parede branca bem acima de nossas cabeças. Pois se os duplos campeiam como vou me deslocar para ser, como sair de uma condição à outra me movendo em direção à, desejando, efim, existindo? Talvez por entre os duplos eu consiga me mover de uma forma dupla, vivendo o extase do vivo e a emoção do morto, ou vice versa. Então, eis que Herder colocou-se diante da parede branca e dispos-se a enfrentá-la por falta de opções.

O nome Herder agrada porque lembra Goethe, um pouco, de maneira indireta, mas lembra. Deleuze, em lógica do sentido diz que uma grande filosofia pode ser identificada pela transformação, pela revolução que faz na forma de trabalhar com a causalidade. Esse foi o caso do pensamento de Goethe. A origem tal qual é estudada por Walter Benjamin em história deriva da origem da ciência e metafísica de Goethe. Mas voltemos a parede branca, aqui representada, até que eu ou Herder escrevamos o segundo capítulo, pelo branco que se segue abaixo dessa última palavra:

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