Manoel Bandeira e Eugênio Montale: Poética semelhança

Foto: Sandro Alves

 

 

O senso comum tende a considerar muitas releituras de obras ou apropriações como plágio. Tom Zé dessacralizou bastante estes estigmas com sua Estética do plágio ou do Arrastão.

Tendo em mente que no caso da poesia esses casos de semelhanças entre uma obra e outra são ainda mais complexo, apresento aqui uma descoberta que fiz em fim dos anos 90:

Eugênio Montale & Manoel Bandeira
(Céticas semelhanças)

Momento num Café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta

Veja se você, leitor perspicaz, consegue ver a considerável semelhança que existe entre o poema acima, de Manoel Bandeira, e o que vai abaixo, de Eugênio Montale:

Forse un mattino andando in un’aria di vetro…

Talvez uma manhã andando em ar de vidro,
árido, voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada a minhas costas, o vazio detrás
de mim, com um terror de ébrio.

Depois, como num quadro, acamparão de chofre
árvores casas colinas, para o engano costumeiro.
Mas eis que será tarde: e eu andarei mudo,
entre os homens que não se voltam, com meu segredo.

O que há de semelhante entre os dois poemas? Mais de uma semelhança existe ai:

Os dois poemas tratam de indivíduos que têm uma visão diferente da dos demais relativamente à questão da existência, da natureza finita e “abismática” da existência. Manuel Bandeira trata explicitamente da finitude da vida, da condição material do humano. O personagem de seu poema é um cético e não crê em vida depois da morte. Motale, por sua vez, não particulariza a origem do nada na figura da materialidade do corpo e da morte.

O personagem em primeira pessoa do poema de Montale personagem também é o único a perceber uma certa condição, é o único a se voltar para trás e ver o terror de ébrio.

Nos dois poemas existe um indivíduo que se destingue dos demais por conseguir perceber algo relativo à existência que os demais não percebem.

Nos dois poemas existe um momento de suspensão do espaço tempo:

Banderia: “Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente”

Montale: “Talvez uma manhã andando em ar de vidro,
árido”

Não creio que seja forçar a barra ver uma semelhança entre o “gesto longo e demorado” e o “ar de vidro”.

 

Foto: Sandro Alves

 

Nos dois poemas temos o caso de um personagem que encontra a condição de ser o único por entre os “outros” que percebe a condição de traição da vida, de terror da existência. Ambos seguem, saudando a matéria liberta para sempre da alma extinta por entre aqueles que não se voltam.

“A vida é traição, ou “será tarde”. Ar de vidro ou gesto longo. Homens que não percebem o momento da passagem da morte no caixão ou aqueles que não se voltam.

É incrível, na minha opinião, a semelhança entre os dois poemas. Quanto mais os leio mais ela se me apresenta. Me falta, entretanto, tempo para alongar o discurso a esse respeito; devo voltar-me para os meus temas urgentes (maquinalmente sem me voltar muito para trás, nessa deliciosa odisséia entre-poemas ).

Sandro Alves

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: