Herder e a parede branca; duplos, visíveis, visuais, tacteis e o pensamento

Ensaio para um conto chamado “Herder e a parede branca”*

*Ficção: proto-fábula esquisofrêmica.

O que pode uma parede branca contra o bom andamento dos ânimos, dos sonhos e dos projetos de um homem? Uma parede branca tem um caráter de duplo, ela não é nada, mas, decerto, também não está em condições de ser o nada. Ora, desde o primeiro momento que pensamos nela como o equivalente de um vazio, de um nada, ela deixa de ser nada; esta é a natureza do nada, inatingível pela débil imaginação humana. Uma vez resvalado, tangenciado, o nada se desfaz e não é mais nada. Como posso então considerar sua existência, ou seja, a existência da não existência. Como posso considerar a existência da não existência enquanto sou, enquanto estou, enquanto existo. Existir significa, em alguma medida, deslocar-se do centro que o indivíduo é para fora, certamente porque centrado em um único núcleo, sem ex, sem ir para algum ex, exterior, extensão, e porque não, extenuante. Daí a morte, por muitos, ser tida como descanso e não como fim, extensão da vida enquanto seu fim, o fim da vida extenuante só pode ser uma extensão, um ex que campeia em ir.

Mas o que importa é que a parede branca existe, embora evoque a impossibilidade, o caráter intransponível da existência, a impossibilidade de se dar o próximo passo. Diante da parede branca, sem poder ir adiante, o existir não pode ex muito, e muito menos este ex não pode ir. Parado, atado, atado pela corda inexistente que emana da parede branca. Ela é um duplo. Todo duplo é um objeto morto que emana de maneira estranha e singular, inquietante, a condição do vivo que se lhe projeta suas ânsias. O duplo é a emanação do vivo, o existente, pelo morto, a parede branca, no nosso caso. E eis que você é evocado aqui pela primeira vez, no nosso pequeno conto que canta a história de Herder. Herder e a parede branca não vai muito além disso: um homem diante de uma parede branca que era para ele o símbolo, o duplo, de um outro homem, também como ele existente, insistente em ser e estar, deslocando-se de alguma forma indo para algum possível, imaginável, palpável e talvez até atingível exterior, ex, fora de si. A etimologia do termo emoção nos leva a isso: fora de si, sair de sua condição ordinária. É a condição extática: ex tasis. O êxtase é um anseio, um desejo dilacerante de não encontrar a parede branca bem acima de nossas cabeças.

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